Anais do seminário do INES
Surdez: diversidade Social
Nelson Pimenta
Surdez: diversidade Social
Nelson Pimenta
Com a oficina que acabamos de fazer, vivenciamos uma situação em que a diversidade se impôs. Houve momentos em que foi difícil relativizar valores e aceitar as diferenças. A vida e a sociedade são assim, temos que conviver com a diferença e com a oposição o tempo todo.
Eu me chamo Nelson Pimenta e nasci em Brasília, no dia 6 de setembro de 1963. Mudei-me com a família para o Rio de Janeiro em 1976. Fui o primeiro ator surdo a se profissionalizar no Brasil, estudei no NTD (National Theathre of the Deaf) de Nova Iorque, sou pesquisador de Língua de Sinais e já atuei como instrutor de teatro e de Línguas de Sinais Brasileira em diversas instituições de ensino, entre elas o INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos) e a FENEIS (Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos). Atualmente estudo para a graduação em Cinema pela Universidade Estácio de Sá. Em 1999 criei, com Luiz Carlos Freitas, A LSB Vídeo, empresa com a missão de contribuir para o aprimoramento da educação dos surdos. Montamos uma equipe de trabalho com profissionais da área de educação que acreditam que a situação de exclusão social em que muitos surdos brasileiros se encontram poderia ser evitada a partir da construção da identidade surda nos indivíduos, possibilitando a luta por seus direitos e promovendo a conscientização de seus deveres.
Eu sou surdo e sou feliz. Minha trajetória de sucesso começou na família, com a absoluta aceitação da diversidade da minha natureza, principalmente por parte de minha mãe, que desde a descoberta da surdez teve a intuição de que o mais importante em sua relação comigo seria termos uma comunicação mais fácil e natural para mim, e não o contrário. Logo descobriu que essa forma era com os sinais e adotou a língua de sinais em nossa casa. Por causa disso, cresci acreditando que a comunicação do mundo era dessa forma, através dos sinais, e, portanto, nunca cogitei que eu pudesse ser diferente. Meu referencial nunca foi a audição e sim a surdez, o que contribuiu, definitivamente, para a construção da minha identidade como um indivíduo com elevada auto-estima e autoconfiança, ao contrário de outras crianças que às quais são impostos modelos de comportamento e comunicação adequados a quem tem audição e, com isso, passam a ter os ouvintes como referência. Invariavelmente, essas crianças crescem com baixa auto-estima, acreditando serem deficientes por não conseguirem a mesma performance que os ouvintes na fala e na escrita.
Mais tarde descobri que eu sou, de fato, diferente da maioria, e minha luta começou no sentido de que a surdez seja reconhecida como apenas mais um aspecto das infinitas possibilidades da diversidade humana. Ser surdo não é melhor ou pior do que ser ouvinte é apenas diferente. E ser surdo é diferente de ser deficiente auditivo. Se um de vocês aqui presentes, que ouve e que, por isso, tem a cultura da audição, ou seja, se comunica através da fala, gosta de música e do barulho do mar etc., perder a audição, certamente será um deficiente auditivo, pois estará com um déficit, uma vez que perdeu algo que já teve um dia. Mas eu nasci surdo e, como só se perde aquilo que se tem, nunca perdi minha audição, pois nunca a tive. Eu tenho o direito de viver assim, e o mundo tem o dever de aceitar minha diferença.
Sou surdo e sou feliz.
A pergunta é: Você considera a surdez congênita uma deficiência? Por quê?
Grupo: Sérgio, Gerson e Maurício.
25 comentários:
Eu considero a surdez congênita uma deficiência, pois se trata justamente de uma falta, uma ausência. Mas o ponto de vista de uma pessoa que possui essa deficiência e que convive bem com ela, pode ser diferente, pois muitos deles não se consideram deficientes.
Considerando que a surdez congênita é, como disse a Marciele, uma ausência, uma falta, comparando quem a possui com as pessoas pelo senso comum consideradas normais, esta seria sim uma deficiência. Pois os surdos não conseguem realizar todas as atividades que outras pessoas consideradas normais fazem.
Temos também a questão de que os surdos não se consideram deficientes, mas sim uma comunidade a parte, mas até que ponto isso é positivo?
Acredito que os direitos dos surdos devam ser respeitados e eles mesmos cobram isso, mas se não se consideram deficientes isso não seria contraditório?
Sim, eu considero a surdez congênita uma deficiência, uma vez que se temos que nascer com um determinado número de funções corporais e uma destas funções não se faz presente, então para mim isto é uma deficiência, é claro que esse indivíduo por já ter nascido sem a audição, acaba aguçando outras abilidades, o que talvez possa fazer com que tenha mais facilidade em atividades que eu, por exemplo, que tenho a audição, não tenha tanta facilidade assim, mas mesmo assim, até mesmo por precisar de uma forma de comunicação diferenciada, isso já caracteriza deficiência.
Concordo com a paula, acho que a partir do momento em que uma de nossas funções não pode ser realizada faz-se presente uma deficiencia. Mas eu deixo uma questao..até que ponto é proveitosa a discussão sobre termos e caracterizações? isso não leva a uma segregação ainda maior?
No meu ponto de vista, surdez congênita é uma deficiência sim, pois uma pessoa que possui tal deficiência, independentemente do grau em que ela se encontra, não conseguira levar uma vida dentro das adversidades, normalidades que a vida nos impoe. Ela desenvolve outras habilidades que talvez nós, seres humanos sem deficiência alguma não conseguiremos realizar com tal perfeição. Com tanto essa pessoa deve sim ser amparada legalmente, tendo privilégios adquiridos e respeitados por todos nós, mesmo que digam não ter tal deficiência.
Penso que a suedez congênita é uma deficiência, pois toda deficiência é caracterizada como a perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade dentro do padrão considerado normal para o ser humano.
È evidente que devemos respeitar àqueles que são portadores de tal deficiência e que não consideram a surdez congênita como sendo uma deficiência.
Por fim, concordo com o questionamento que a colega Marina colocou, e acho mesmo que ficar discutindo acerca de caracterizações ou conceitualizações em nada vai contribuir para a aceitação dos portadores de necessidades especiais na sociedade.
Como já foi dito, na medida em que não temos todas as nossas funções corporais desenvolvidas, há uma deficiência. Claro que esta deficiência não afeta a capacidade intelectual. A questão levantada pela colega Marina é pertinente, a discussão sobre o que deve ser caracterizado como deficiência ou não, não poderia gerar uma segregação, um preconceito realmente maior?
Aniele Freire
O deficiente auditivo tem problema na comunicação e não intelectual.O deficiente auditivo tem uma deficiencia parecida com a do deficiente fisico e visual.São problemas que não afetam a inteligencia da pessoa.Segundo os dicionários de português deficiência é falta de alguma coisa.Os deficientes fisicos não conseguem caminhar,os visuais enxergar e os auditivos escutar.Isso seria uma deficiencia.
Diante do argumento que o surdo não é deficiente só é deficiente aquele que nasce com alguma coisa e a perde no transcorrer de sua vida, o surdo nessa perspectiva não é deficiente. Mas diante disso uma pessoa que nasceu sem uma perna ou sem um braço ou propriamente com déficit cognitivo muito baixo, não seria deficiênte também? Tal é o argumento falacioso usado pela comunidade surda. Não possui lógica nenhuma, pois lembrando o que foi citado em todos os comentários aduzidos, a própria deficiência pressupoem uma carência de algo, seja ela congênita ou adquirida ao longo da vida dessa pessoa!
A surdez congênita no meu ponto de vista é uma deficiência, tendo em vista que diz respeito à biologia da pessoa e que, é uma ausência ou a disfunção de uma estrutura psíquica, fisiológica ou anatômica.
Como foi abordado pelos colegas, para mim surdez congênita é uma deficiência. Pois, de alguma forma, existe uma falta, algo não esta funcionando como deveria. Então existe uma deficiência. Acho importante a pessoa que possui essas características ser considerada deficiente, uma vez que necessita das leis e regulamentações que todo deficiente tem direito.
Sim, pois embora existam vários métodos que podemos utilizar para nos comunicarmos com deficientes auditivos, ainda assim devemos pensar como eles poderão aprender as outras linguagens de sinais que são aplicadas em outros lugares. É notório que a falta de audição e/ou a perda auditiva é um grande empecilho para uma total interação com os membros de uma sociedade cujo a principal forma de troca de informações é a linguagem falada, porém este déficit auditivo não pode ser justificativa para um tratamento diferenciado com relação aos interesses e preferências destas pessoas.
A surdez é considera uma deficiência, pois o aluno possui uma barreira de aprendizado normal. Entretanto, pode desenvolver o ensino através da escrita ou da linguagem de sinais . É necessário, que o aluno tenha acompanhamento de um interprete, o que romperá qualquer obstáculo do para que tenha um aprendizado eficiente.
Não tenho muita coisa a dizer sobre isso, ainda depois depois que eu soube que os surdos comemoram quando um outro surdo nasce, para assim "aumentar" a sua comunidade. Mas... acho que a surdez deve ser considerada uma deficiência, não tão grave como outras.
Deficiência é um termo problemático. A caracterização feita por outros termos como "falta", "ausência", parece pressupor um ideal de ser humano perfeito, completo; e pior baseado em uma generalização do senso comum. Estou errado?
Sim, pois o decreto da legislação brasileira já deixa claro que deficiência é "toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gera incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano".
Se ele nasceu surdo, apresenta uma anormalidade em uma de nossas funções básicas que o faz buscar uma linguagem que não está no padrão dito normal e usufrui das leis que amparam um deficiente. Para mim eles não podem ser vistos de outra forma, só não intendo a resistência em admitir suas limitações.
A pergunta é um tanto filosófica :)
O Gilson apontou algo interessante. Você só pode falar de algo incompleto tendo em vista uma referência. Essa referência seria o tal algo completo. Acontece que se falamos de seres humanos incompletos, quem seria o ser humano completo? Certamente que não um de nós, portanto somos todos deficientes, ou nenhum de nós é deficiente.
Poderíamos dizer que sim, nós somos seres humanos completos (é como usualmente entendemos quando usamos a palavra 'deficiente'). Pode-se perguntar ainda " em quê?". se for completude física parece claro. Mas e quando falamos de completude mental, por exemplo? daí a clareza se perde. Mas sempre que a compreensão se perde podemos nos defender com a convenção da letra da lei.
Sim.Pois qualquer comprometimento de sentidos pode ser dita como deficiencia
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